Quero minhas sete  
Quero Minhas Sete



 CAPÍTULO 1: Pâmela
 
 

Naquele dia, o sol estava extremamente quente e insuportável. Nos noticiários regionais na televisão, era comum nessa época mostrar reportagens sobre como os alto executivos agüentavam trabalhar naquele calor com todas aquelas roupas sociais. “Tem que agüentar, né?” e “Depois eu tomo uma água pra refrescar” são sempre as respostas mais comuns quando a repórter pergunta. Junto com as reportagens de vestuário, as famosas reportagens sobre os clubes lotados e sobre os costumeiros problemas de falta d’água no período das férias de verão.
Férias de verão. O período do ano mais almejado pelas crianças, adolescentes e jovens adultos no país. Todos aguardam esses dois meses no verão para esquecer as frustrações do ano. Notas baixas, reprovações, problemas familiares, término de namoro, rejeição e todos outros são esquecidos quando se anda pelas ruas e repara na decoração de Natal que anuncia o término do ano. 
E em uma dessas ruas, um carro andava pela congestionada rua. Era um carro que chamava a atenção. Era um modelo popular, e havia várias bagagens amarradas em cima do carro por uma corda, e duas bicicletas presas atrás. Olhando dentro do carro, víamos um senhor robusto, com marcas no rosto que diziam que já chegara aos quarenta, dirigindo estressadamente devido ao tráfego. Ao seu lado, uma mulher aparentemente da mesma idade do senhor enchia um copo de plástico com água, e entregou o copo para uma garota belíssima que aparentava seus dezenove anos. Ao lado da belíssima garota, havia outra garota que tinha uns dez anos e no outro canto do carro se encontrava um garoto, que parecia diferente de todos que estavam lá. Tinha um ar meio triste, meio frustrado. Devia estar ali à força.
-Tudo bem filho? – perguntou a mulher que agora guardava o copo de plástico na sua bolsa.
-Ele deve estar assim pois mudanças são difíceis nessa idade. – Intromete-se o senhor que parecia que havia desistido de olhar o tráfego, que não andava – Quando eu tinha a idade dele também não gostava de mudanças. Ele puxou isso a mim, hehe.
-Eu estou bem, não se preocupem. – respondeu o garoto sem um pingo de ânimo na voz.
-Você vai gostar de onde vamos morar, Bruno. – começou a mãe – Você vai conhecer gente nova, vai fazer muito bem a você. Aposto que deve ter muitas garotas bonitinhas aqui em São Paulo também.
-Como se ele fosse aproveitar isso. – Comentou a belíssima garota que agora soltava o cabelo e fazia parecer mais bonita ainda com seus belos cabelos loiros refletindo a luz daquele sol. – Com muita sorte ele já conseguiu beijar uma garota, o que eu acho bem difícil. Ou vai me dizer que a senhora já o viu conversando com alguma menina lá na nossa cidade, heim mãe?
-Bem...
-Não precisa responder mãe. Meu irmão é um fracasso com as garotas. É uma pena que nem todos nessa família receberam o dom da beleza...
-AGORA VOCÊ VAI PARAR, MOCINHA! – gritou o pai que quase bateu no carro da frente – Você não é ninguém para humilhar o Bruninho. Saiba que quando eu tinha a idade dele...
-Já sei, você demorou pra começar a namorar, mas quando começou ninguém te segurou... – disse automaticamente a mãe, parecendo que ele sempre falava daquela história. – Mas como eu dizia até ser interrompido pela Josiane, me disseram que há muitas garotas lindas em São Paulo. E não se esqueça de uma estatística que eu vi num livro: “Para cada homem, há sete mulheres que lhe correspondem”. Olha só, chegamos na nossa nova casa!
O caro estacionou na frente de um sobrado simples, porém aconchegante. Havia uma garagem e ao lado uma estreita escadaria que levava à porta de entrada, que era cinza e rústica. Todos desceram do carro e pegaram suas malas para levar para dentro do sobrado, que seria o novo lar da família. Enquanto carregavam as malas sob o sol de começo de verão, uma frase não saia da cabeça de Bruno. “Para cada homem, há sete mulheres que lhe correspondem”. Seria isso verdade mesmo? Em todos os seus quinze anos de vida, Bruno nunca havia tido sorte com garota nenhuma. Nunca havia andado de mãos dadas com uma, nunca havia abraçado uma, nunca havia... beijado nenhuma. Isso era algo que ele escondia de todos. Nessa idade, é uma vergonha nunca ter beijado uma garota. Será mesmo que a estatística funcionava?
-Acorda, Bruno! – disse a pequena garota loira de dez anos, que carregava uma dúzia de ursinhos de pelúcia. – Carrega essas malas logo pro seu quarto. Estou tão contente que não irei mais dividir o quarto com você! Você ronca alto.
-Já vou, Paty! Eu também estou contente de não ficar mais no mesmo quarto que você. Talvez a distancia nos uma mais.
Bruno arrastou suas malas até um apertado quarto que havia sido designado a ser seu quarto. Embora ele tivesse mais coisas, ele perdeu no sorteio de distribuição de quartos, então acabou ficando com o menor. Ele largou sua mala no chão mesmo e esparramou-se na cama olhando para o teto. Onde havia parado nos pensamentos mesmo? Ah, em como ele era fracassado com as mulheres. Não só com as garotas, mas com todos no geral. Só tinha dois amigos. E nenhum dos dois sabia que ele nunca havia beijado uma garota. Ele mentia dizendo que já havia beijado, só para não se sentir fora do grupo. 
Para ele, um beijo era algo mais que o encontro de duas bocas e um duelo de línguas. Para ele, um beijo representa a passagem de criança para adolescente. Ele ainda se sentia uma criança, mesmo já tendo seus um metro e setenta de altura. Vivia imaginando com seria seu primeiro beijo, com uma linda garota acariciando seus curtos cabelos castanhos e abraçando-o tão fortemente que pensava que poderia ficar daquela maneira para todo o sempre. Mas depois ele se dava conta que estava sonhando demais. E acabava se lembrando da sua mais terrível experiência amorosa.
Ele tinha doze anos quando finalmente começou a se sentir atraído pelo sexo oposto. Em especial por uma linda garota de sua sala, chamada Ana Paula. Bem dotada fisicamente, tinha longos cabelos escuros e encaracolados, e se exibia com exuberância sempre que passava. Infelizmente, ela era um pouco “saidinha”. Todos os garotos pareciam que já haviam beijado ela ou até quem sabe algo mais. Bruno escondia um sentimento por Ana Paula tão forte que não ouvia quando diziam que ela era “galinha” ou que “ficava com todos”. Levou sete meses para ele tomar coragem de ir falar com ela. Ele gaguejou as palavras Eu gosto de você. O que se viu então foi de partir o coração. 
A expressão do rosto dela primeiro demonstrou surpresa, e logo depois se tornou um sorriso. Bruno esperava que aquele fosse o sorriso que iria dizer “eu também”, mas não foi bem isso. Ana Paula começou a rir, e a rir alto. Em poucos instantes, todos que estavam em volta olharam para os dois. “Se olha garoto” começou a garota “Quem neste mundo iria ficar com um cara como você? Se olha no espelho, você não tem nada que atraia uma garota!”. Todos em volta começaram a rir, e Bruno olhava para os lados como se procurasse alguém que estivesse com pena dele, mas não achou ninguém. Aquelas risadas ecoavam forte dentro da sua cabeça. As frases ditas por Ana Paula martelavam em sua cabeça. Ele saiu correndo em direção à porta, mas foi barrado pelo professor que entrava na sala de aula pois havia terminado o horário do intervalo. Ele se lembra de ter ficado mal por dois meses inteiros, que foi o período que o pessoal ainda gozava dele.
O Bruno do presente continuava deitado em sua nova cama, contemplando o teto de seu novo quarto. Mais memórias vinham a sua cabeça. Lembrava-se que não tinha amigos. Colegas no máximo. Ele nunca pôde confiar em ninguém. Uma vez apareceu um garoto que parecia que iria ser um excelente amigo. Andavam juntos e o Bruno até arriscou contar coisas sobre seu passado. Mas foi apunhalado pelas costas quando descobriu que a escola toda sabia que ele assistia a um programa infantil na televisão. E o único que sabia disso era esse suposto amigo.
Contemplando o teto de seu quarto, suas pálpebras foram ficando cansadas, sua visão tornou-se turva e logo seu subconsciente havia sido desligado. Agora ele não estava mais no conforto da sua casa, estava entre duas árvores realmente grandes, no que parecia ser um campo aberto. Estava frio, notava isso pelo blusão verde que usava. Não havia pessoas por perto e constantemente ele olhava o relógio, como se esperasse alguém. A ansiedade corroia todo seu corpo, até que...
-ACORDA, VAMOS JANTAR!!! – gritou Paty, que entrou pulando no quarto do irmão. – Hoje vamos ter pizza pois o papai quebrou o fogão!!!
Bruno reparou que voltara ao quarto e que estava longe do campo aberto com as duas árvores. Não sabia ao certo quanto tempo tinha ficado lá deitado admirando o teto e suas memórias, mas se sentiu como se estivesse lá por horas. Mas o que não saia da sua cabeça foi seu estranho sonho. Será que ele significava algo ou era só mais um sonho imbecil que tinha?
Depois de mais um jantar, ele foi dormir. E teve aquele mesmo sonho...

No dia seguinte Bruno acordou bem cedo, comeu umas torradas com manteiga e saiu logo de casa. Queria passear um pouco, conhecer seu novo bairro. Mas na verdade isso é só uma desculpa pra ele não ter que ficar em casa ajudando a arrumar a casa nova.  Ao sair, ficou alguns minutos admirando o sobrado que agora era seu novo lar. Quando ele chegou não tinha reparado que era enorme, mas não era o mais bonito da rua. A rua era reta e cheia de árvores. Notava-se que a maioria das casas eram de quem tinha dinheiro, reparou isso pois pelo menos umas cinco ou seis casas na rua tinham piscina.
Ele caminhava devagar pela rua, como se tivesse observando detalhadamente cada casa na rua. Como era muito cedo, não havia ninguém na rua. Ao chegar no fim da rua, ele olhou para os dois lados. Viu no lado direito uma escola relativamente grande, que vendo o nome descobriu que era a escola que estava matriculado. Foi se aproximando, para ver melhor sua nova escola. Era um prédio bem grande, com uma entrada simples e cheia de árvores que deviam ser mais velhas que ele. Ao lado viu uma quadra de esportes, que devia ser da escola. Mas não gastou mais tempo com a quadra e voltou a observar a entrada da escola. Olhava fixamente a entrada.
-CUIDADO!
Bruno sentiu uma pancada forte na cabeça e caiu no chão. Só viu vultos ao redor dele, até que perdeu a consciência. Quando abriu os olhos, não estava deitado na frente da escola, mas estava em uma sala apertada com vários equipamentos pela sala. Reparou que estava em uma enfermaria.
-Essas bolas são um perigo. – disse uma mulher vestida de branco, que deveria ser a enfermeira - Por que as bolas de basquete são tão pesadas assim?
-Eu não sei, mas se fossem mais leves não daria para jogar basquete. – respondeu uma garota que segurava uma bola de basquete.
“Então foi uma bola que me acertou!” pensou Bruno.
-Olha enfermeira, ele acordou! – exclamou a garota que já havia largado a bola de basquete numa poltrona velha perto da porta.
-Você está bem garoto? – perguntou a enfermeira.
-S...sim senhora. – respondeu timidamente.
-Eu sei que essas bolas são pesadas, é um perigo elas acertarem algum aluno.
-É que eu estava olhando o prédio da escola. Onde eu estou?
-Você está na enfermaria da escola. Eu sou a enfermeira daqui, e você tem sorte que eu estava aqui hoje. Geralmente não tem ninguém aqui nessa época de férias e muito menos nesse horário. Você é aluno daqui?
-S...sou, mas só vou começar na semana que vem. 
-Você vai gostar, é uma escola muito boa. Bem, você tem que ficar deitado por pelo menos mais uma hora, então vou te deixar aqui.
Bruno ia perguntar se ele iria ficar lá sozinho, mas antes que sua boca se mexesse a enfermeira disse:
-A garota que te acertou vai ficar aqui com você, como “castigo”, hehe. Melhoras!
A enfermeira saiu da sala e Bruno olhou para a garota que estava perto dele. Era loira, bem maior que Bruno e tinha um corpo forte. Dava para reparar que ela praticava esporte.
-Ah... foi mal pela bolada! – desculpou-se a garota – Sou a capitã do time feminino de basquete da escola e estávamos jogando até que sem querer eu te acertei. Qual seu nome?
-Br...Bruno.
-Prazer, meu nome é Pâmela. Em que série você vai entrar?
-No pr...primeiro colegial.
-Eu sou do terceiro colegial. Parece que você é meio tímido.
-Um po...pouco.
-Retiro o que eu disse, você é totalmente tímido. Devia ser mais descontraído, você é bonitinho e essa timidez pode te atrapalhar.
Bruno não estava acreditando. Pela primeira vez uma garota chama ele de bonitinho. Se ele já estava tímido até aquele momento, imagina como ele ficou depois de ouvir da boca de Pâmela que ele era bonitinho! Nunca se achou bonito, pelo contrário, sempre achou que tinha uma testa e o nariz um pouco maiores que o normal, fora seu cabelo não era uma maravilha também.
-Você está me ouvindo?
-S...sim estou. – reparou que ficou tempo demais pensando.
-Eu estava pensando, você gostaria de ir tomar um sorvete comigo? Sabe como são as coisas, não é? É para eu me redimir do que fiz com você.
Agora a coisa avançou para um nível que nunca havia chego antes. Depois de uma garota o chamar de bonitinho, agora ela estava convidando-o para tomar um sorvete. Era bom demais para ser verdade. Devia ser um sonho.
Bruno concordou com a cabeça e ambos foram para a lanchonete, que ficava ao lado da escola. Por causa do horário ela ainda estava vazia, com a funcionária tirando as cadeiras de cima das mesas. Ambos foram para o lado da lanchonete onde ficavam os sorvetes. Pâmela pegou um de limão e Bruno pegou um de chocolate. Depois de cada um pagar o seu sorvete no caixa, os dois pegaram uma mesa e sentaram-se.
-Você veio de onde? – perguntou Pâmela depois de dar uma mordida no seu sorvete.
-V...vim do interior. – respondeu tenso enquanto tentava abrir o seu sorvete.
-Nossa, você é muito tímido mesmo, ou você fala gaguejando assim normalmente?
-N...não, quero dizer, não! 
-Eu ando muito carente esses dias sabe? Estou sempre preocupada com o campeonato inter-escolas e nunca tenho tempo para um namorado. Uma vez eu namorei um cara durante um ano. Estava tudo bem, até eu descobrir que ele estava me traindo com minha melhor amiga. Por sorte os dois saíram da escola e nunca mais precisei falar com eles...
Bruno estava confuso. Por que a Pâmela estava contando aquilo para ele? Será que ela estava interessada nele? Bruno não conseguia tirar os olhos de Pâmela. Nunca havia sequer conversado com uma garota como estava nesse momento. 
-E você tinha alguma namorada lá no interior?
Aquela pergunta foi como uma lança perfurando o cérebro dele. Ele precisava inventar algo. Onde já se viu acabar contando que mesmo já tendo 15 anos ele nunca havia beijado nenhuma garota. Precisava inventar algo rápido.
-Sim, eu t...tinha uma chamada Sheila. 
-E você terminou com ela por quê?
-Pois ela pulou na frente de um carro e morreu.
Depois de ver a reação no rosto de Pâmela ele se tocou que havia inventado demais. Ninguém com o mínimo de inteligência acreditaria numa história absurda dessas. Isso é o que dá quando se responde algo sem pensar nas conseqüências. 
-Como?
-D...digo, ela se suicidou depois que eu terminei com ela.
Agora a história parecia menos absurda, mas não melhorava muito. Por que suicídio? Poderia ter falado que ela se mudou pra Bahia, que ela havia perdido a memória, que ela havia sido abduzida por alienígenas, mas ele teve que escolher a pior desculpa de todas: suicídio.
-Nossa, então ela devia te amar muito. – comentou Pâmela lambendo o final do seu sorvete.
-É s...sim. – Bruno respirou aliviado pois as perguntas sobre a “sua namorada” acabariam depois da história do suicídio.
-Você namoraria com uma garota como eu?
Pela terceira vez em menos de uma hora Bruno ficava chocado com algo que falavam. Primeiro foi chamá-lo de bonitinho. Depois foi o convite para ir à lanchonete. Agora ela perguntava se ele namoraria ela. Do jeito que Pâmela era bonita e ele nunca teve uma garota, ele diria sim na hora.
-B...bem, eu a..acho que...
-É que meu namorado não anda me dando mais atenção.
Bruno viu todas as suas esperanças de ter uma namorada se partindo na sua frente. Pâmela tinha um namorado, e ela devia estar perguntando aquelas coisas de namoro só para poder comentar de seu namorado. E o “bonitinho” devia ser só educação dela.
-Meu namorado anda muito ligado no campeonato de futebol inter-classes de Março, ele é o capitão do time. Eu sofri para começar a namorar ele, pois é um dos mais lindos e populares da escola. Mas agora que estou namorando ele parece cada vez mais distante, entende?
-Entendo.
-Desculpa estar aqui te importunando com meus problemas. – Pâmela pegou seu palito e arremessou na lata de lixo ao lado deles. – Cesta!
Bruno se levantou também e jogou seu palito no lixo. Pâmela se aproximou do rosto dele e lhe deu um beijo na bochecha. 
-Até semana que vem, no começo das aulas! – disse para Bruno e logo saiu correndo da lanchonete.
Bruno ficou parado como uma estátua na lanchonete. Nunca havia recebido um beijo na bochecha, e estava tão radiante que ele não se importava se mundo acabasse naquele momento. 
 
 


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