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Verythrax Draconis
verythrax@myrealbox.com Até a um instante atrás, Kaoru pensava estar dormindo. Ela tinha todas as sensações de quem havia dormido, até a sensação de ter sonhado mas logo em seguida ter esquecido o sonho, por despertar tão abruptamente. Algo a tinha acordado. Ela não sabia dizer exatamente o quê. Talvez algum barulho, algum som que atacou os seus sentidos e a despertou de seu torpor. Seria uma música? Parecia que sim. Ela se concentrou por um momento, num esforço para tentar se lembrar. Logo uma melodia estranha invadiu o seu pensamento, automaticamente, como se ela já a conhecesse de cor. Excitada com sua descoberta, Kaoru quis sorrir, mas parecia que o seu corpo se recusava a responder. Ela ficou atônita por um minuto, diante daquela situação. Ela nunca tinha passado por algo desse tipo antes, esta vontade de se mover, mas sem obter resposta do próprio corpo. Uma vontade de gritar, mas seus lábios não se moverem, incapazes de emitir som algum. Era como num pesadelo, onde a mente está desperta e consciente, mas o corpo não corresponde à nossa vontade. Era isso. Kaoru estava em seu sonho. Ela podia perceber claramente que aquele não era um pesadelo, pois apesar da limitação física que sentia, ela não se sentia aflita, como estaria num sonho ruim. Consciente de sua situação, Kaoru concentrou-se, saboreando
aquela sensação um tanto inédita.
Em meio ao seu deslumbramento, Kaoru percebeu que aquela música que a havia despertado ainda estava tocando. Ela não a ouvia. Não era um som o que ela percebia, era algo maior do que isso. Era como se a música transbordasse de seu cérebro, tanto o som dos instrumentos quanto a sua letra, à medida em que ela a imaginava. Parecia que as estrofes eram compostas no exato momento em que tomava conhecimento delas. Como se esta fosse uma música executada só para ela, numa audição única e privada, onde os músicos escreviam a música a cada estrofe que tocavam. A letra desta música não era cantada em sua língua,
mas ela sabia exatamente o que ela dizia.
I see a dark sail
Um navio negro? Sim ela certamente já ouvira falar dos navios negros, tão odiados pelos defensores do xogunato. Mas não era este navio negro a quem a música se referia. Kaoru sentia que o navio era realmente uma ameaça, mas também era um inimigo dos marinheiros estrangeiros, vindos naqueles navios negros que chegaram à sua terra. Aquele era um inimigo comum de ambos, o próprio terror. Bring me my Broadsword
Uma espada larga*? Kaoru não conseguia imaginar uma espada com
aquela descrição. Ela jamais vira uma arma daquele tipo.
Mas aquilo não era importante. O sinal estava dado. O homem estava
se preparando para o combate, para enfrentar aquele terrível navio
negro. Karou notou um detalhe, que lhe chamou atenção. O
homem não pedia força, nem sorte no combate, mas sim sabedoria
e uma cruz de ouro. Ele pedia inteligência e o símbolo de
sua fé. Lutaria ele por sua fé, e confiava nela - o
seu talismã. Aquela não seria uma luta a ser ganha somente
com armas. Ela não acreditava na cruz, na religião trazida
pelos navios negros do ocidente. Mas ela sabia que eles
Get up to the roundhouse
Deveriam todos preparar-se para o combate eminente, em suas posições, atentos. Mas, porque deveriam as mulheres e crianças deitar-se, enquanto os homens se arriscariam sozinhos contra aquele mal? Kaoru não entendia aquilo. Ou melhor, preferia não entender. Ela, no fundo de seu coração sabia que conhecia resposta daquilo, mas algo em seu subconsciente se recusava a aceitar aquilo. Bless with a hard heart
O pedido do soldado parecia um tanto peculiar, mas de alguma forma Kaoru
sentia que já conhecia aquilo, também. Ele pedia para que
os seus conhecidos fosse pessoas fortes, capazes de encarar as tribulações
da vida sem medo e sem fraquejar. De súbito, ela foi tomada por
um sentimento de vergonha. Quantas vezes ela tinha ignorado aquilo, entregando-se
a uma auto-comiseração, com medo da vida, como se Deus lhe
tivesse dado a vida como um flagelo ao invés de uma benção?
A segunda parte daquela estrofe aumentou ainda mais sua vergonha, uma vez
que ela percebeu nitidamente a verdade que o seu cérebro teimosamente
preferia negar. Não cabia as mulheres empunhar a espada, mas firmá-la
na mão de seus maridos. Cabia ao homem morrer por sua
Put our backs to the North Wind
Aquela que seria a última estrofe servia para confirmar tudo
aquilo que ela percebera. Era aquilo, aquele combate incessante, era a
luta eterna contra aquele navio negro que movia a humanidade, que a fazia
cada vez mais forte, e assim a deixava ainda mais humana. Aquele era o
combate que não deveria ser evitado, assim como aquele era o modo
certo de combater. Aquela era certamente uma das verdades da vida, um dos
mistérios que instigavam as mentes de vários sábios
durante séculos. Kaoru quase teve uma vontade de rir diante daquele
pensamento. Ela não tinha mais dúvidas, como quem ela seria,
de onde vinha e para onde iria. Aquela era uma resposta suprema,
Ao constatar aquilo, Kaoru tentou abrir os olhos, mas não foi
preciso. Ela percebeu que na verdade estivera acordada por todo aquele
tempo, e que aquilo não era um sonho, mas um movimento que ocorrera
dentro de sua mente. Teria sido uma visão? Ela não sabia
ao certo, mas não importava. Ela sabia que tinha aprendido uma verdade
absoluta, irrefutável, que mesmo que ela, ou todos os homens da
face da terra a negassem, ela não deixaria de ser correta. Ela tinha
saboreado pela primeira vez uma das mais sublimes sensações:
a sensação de saber a verdade. Não era uma opinião,
não era algo que outra pessoa a havia contado. Ela realmente sabia
aquilo. Era como se aquele conhecimento agora tivesse agora dentro dela,
dentro de sua carne e de seu espírito,
FIM
* * * Escreva seus comentários e críticas para Verythrax Draconis (verythrax@myrealbox.com). Notas: - A canção apresentada acima se chama "Broadsword", do
Jethro Tull, do álbum "The Broadsword
- "Navios Negros" é o nome genérico dado aos primeiros navios estrangeiros que chegaram ao Japão, vindo do ocidente, quebrando o isolamento daquele país do resto do mundo. - Broadsword significa "Espada de Lâmina Larga", espada comum
na idade média européia
- O conceito do "sei que sei" é um conceito filosófico, definido pelo filósofo Olavo de Carvalho. - Não me perguntem por que escolhi a Kaoru para esta história. Eu não saberia responder ao certo... Verythrax Draconis
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