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Mica-Chan
gwydion_mordred@yahoo.com.br
Dois dias haviam se passado, mas ele ainda podia ouvir o som estridente das espadas se chocando, enxergar a morte naqueles olhos e sentir o gosto metálico do sangue em sua boca. O que teria sido dele se Okubo Toshimichi não tivesse interferido? Aquela não fora uma luta pela justiça, fora a busca pura e simples da satisfação de sua alma negra, uma parte sua que julgava sepultada. Ele não temia a morte, nenhum espadachim poderia temê-la. Na verdade, convivera no limiar dos portões que o levariam ao outro plano por tantas vezes, que a aceitação da morte para si tornou-se inevitável. Mas aceitá-la e desejá-la para outro homem eram coisas bastante distintas. E pela primeira vez depois de tantos anos, ele desejara aproximar-se da morte, desafiá-la a vencê-lo. Perguntou-se mais uma vez qual teria sido o resultado da luta Ele jamais retrocederia. O seu corpo havia novamente se tornado alerta e desejoso por um combate, seus sentidos farejando sangue, as mãos ansiando por sentir o líquido rubro e quente jorrando entre seus dedos a medida que escorreriam da lâmina afiada. Sim, ele quisera a morte, almejara provocá-la, e sabia que o mesmo sentira Saitou. O adversário nunca se entregaria ou aceitaria um resultado que não fosse provocado pelo fio da espada. Se Kenshin não fosse mais forte, morreria tentando consumir a vida do outro. Entretanto, o mais provável é que acabassem por destruírem a ambos. Nenhum dos dois ficaria satisfeito com qualquer conclusão que não a morte. Por aqueles instantes voltara a sentir toda a gama de emoções que corriam dentro do Battousai. Não era Kenshin Himura lutando com Saitou naquela dojo. Era o Himura Battousai, o hitokiri que carregaria para sempre dentro de si, e a visão de como seus instintos mais básicos voltaram tão rápido, o assustava. Por quanto tempo conseguiria controlar o desejo pelo sangue que até hoje povoava seus sonhos e atormentava suas noites? A brisa gelada soprou mais uma vez, agora mais forte, fazendo as pétalas das flores em cachos espalharem-se pelo ar, pousando com sua tonalidade bela e pálida sobre o solo. Estendeu o braço e pegou uma pequena pétala rosada, trazendo-a até o rosto para que pudesse aspirar o seu perfume. Delicado e feminino, como todo aroma de flor...como fora o perfume dela. Então, sem qualquer sinal que antevisse o seu gesto, desembainhou a Sabakatou e, lançando a pétala ao vento, partiu-a ao meio, permitindo-se observar as duas metades caírem solitárias no chão de terra batida. Como se a visão lhe provocasse um horror sobrenatural, Kenshin caiu de joelhos, os braços ao lado do corpo, a mão ainda segurando com firmeza a espada desembainhada. As sensações lhe voltavam uma a uma, provocando ondas de revolta em seu íntimo. A maciez sedosa da espada afiada transpassando um corpo após o outro, o sangue manchando sua mão e marcando-o com um cheiro de morte do qual jamais se livraria, não importando quantos anos passassem. Seus olhos azuis, fitando as pequenas pétalas dispostas no chão, e caindo continuamente a cada nova lufada do vento, estavam a enxergar uma vida que não mais lhe pertencia, mas que se negava a abandonar seu coração. O zunido provocado pelo deslocamento do ar de uma espada próxima ao seu corpo, quase a lhe arrancar a vida, o metal frio contra metal em estocadas ligeiras, o olhar mortal...tudo sendo ouvido em seu íntimo. Quando pegara naquela espada para lutar com Saitou, não imaginara reacender dentro de si um desejo tão grande pela morte. Estivera disposto a matar ou morrer, fizera renascer o Battousai, mas não pensara realmente no que esta decisão lhe traria no dia seguinte. Agora tinha menos de uma semana para dar a resposta ao Sr. Okubo, e seu íntimo revolvia-se clamando por sangue a ser derramado por suas mãos. Sentiu as lágrimas escorrendo por seu rosto e estremeceu involuntariamente. O que ele faria agora? Se abrisse as portas mais uma vez, não mais conseguiria fechá-las. Sua sanidade seria roubada, seu presente apagado e toda a dor que mascarava atrás do sorriso doce e gentil sairia reclamando seu lugar de direito. Tocou os dedos gentilmente no rosto banhado em lágrimas, deslizando-os por sobre a cruz talhada em sua face esquerda. A dor e angústia que cortaram seu peito quase o sufocaram, sua mente involuntariamente retornando há dez anos, os olhos mais uma vez fitando aquele rosto delicado e resoluto que traçara os rumos que sua vida seguiria dali em diante. Tomoe. Um anjo vingador que entrara em seu caminho e o fizera sentir a vida pela primeira vez. Amara-a com cada parte de seu ser. Entregara a ela não apenas seu coração e corpo, mas também sua sanidade. Ela fora o seu ar, sua água, sua terra e seu fogo. Era ela quem deveria estar ali, sob aquela árvore, sentindo a brisa brincar com sua pele. Mas ele lhe roubara tudo, primeiro o amor, e depois a vida. Agarrou a espada com as duas mãos, cravando-a na terra firme, e então desabou sobre ela, as lágrimas caindo em gotas sobre as flores pálidas. Nem mesmo todos os anos do mundo seriam capazes de diminuir a dor que dilacerava seu peito e corroía sua alma. Sua Tomoe, com quem vivera por tantos meses e nunca dissera que amava. Mas ela sabia, não sabia? Assim como ele conhecia o amor que brilhava nos olhos dela, nunca declarado, mas expresso com a própria vida para que ele tivesse a chance de cumprir sua promessa de uma vida sem mortes. Colocou-se de pé e com agilidade retirou a espada da terra, recolocando-a na bainha. Ele devia isso a ela. Por mais que sua alma clamasse por ouvir mais uma vez o som da lâmina deslizando na carne de outro homem, a dor profunda e eterna em seu coração, que chorava pela pessoa a quem ousara entregar seu amor, estaria sempre a lembrá-lo que prometera não mais matar. Ele não podia devolver a vida à mulher que amava, mas honraria a memória daquela que ainda hoje era capaz de fazer seu espírito arder. Com um último olhar à árvore
em flor que permanecia majestosa sob o vento que trazia à sua mente
o odor tão conhecido de sangue, despertando lembranças tão
profundas, afastou-se em direção ao dojo, enterrando mais
uma vez em seu peito toda a dor e amor de uma vida.
FIM
Nota: Esta fic está situada entre os capítulos 55 e 56 do mangá, mas faz referência à sua vida enquanto ainda era Battousai. Há muito eu queria escrever uma fic com o
Kenshin, mas só após assistir os OVAs é que encontrei
o clima certo para o meu estilo de escrita. Espero que gostem. .
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