VOL.1.Come Undone  
Olá pessoal! Bem, esse é meu primeiro fanfic, escrito em 1 de janeiro de 2003 (o abre-alas do ano!). Recomendo que o leia antes se quiser ler os que vem a seguir... bem, não são capítulos de um mesmo fic, mas todos seguem a mesma história, e acontecem na ordem. Esse é um songfic, usando a música do Duran Duran - Come Undone (Liiiiiiiiiiiiiinda!! Cara, vc tem que ouvir, é mt linda, a tradução tá no final.) Bem, espero que goste! Apropósito, se vc é ou conhece alguém que desenhe GW com perfeição, peça para me contactar!
       Juli M.

VOL. 1. COME UNDONE

Juli M.
shutuplee@yahoo.com

    

   "Dói saber que não se tem para onde voltar. Dói saber que não existem mais razões, motivos, forças. Que no fim era tudo verdade, pelo menos para mim, jamais me sentiria vivo, realmente vivo, se não matando. Se não controlando uma grande máquina de morte, de vingança, de dor. Nossos motivos não foram em vão, e aquelas palavras foram verdades para os outros, que somos humanos como todos os outros, com sentimentos e medos, com amores e com ódio, os outros quatro que combateram ao meu lado e que juntos conquistamos a liberdade e a conciência da humanidade estão agora prosseguindo em vidas como todas as vidas, sorrindo e chorando quando preciso, mas sendo sempre felizes ao lado de quem amam, e de quem os ama. De quem precisam. E eu, de quem preciso? Por que fui o único que ao final da guerra me encontrei mais perdido do que nunca, sem idéia de que direção tomar, sem ter lugar algum ou pessoa alguma para quem voltar?
      Por que sou aquele que vaga sem destino, aquele que um dia foi chamado de o espírito do espaço? É isso que sou, o espaço? Infinitamente vazio, frio... em vão."
 

   A pequena corrente que mantém a porta fechada sacode com o vento, seu barulho constante faz com que o jovem piloto abra os olhos, solitário dentro da velha casa, caminha até a janela sem vidros, o vento fazendo voar sua longa trança e trazendo velozes pingos de água que tocam seu rosto, gélidos. Ele olha as frestas entre as nuvens onde pode-se ver partes do céu metálico da colônia. Não adiantava o quanto se esforçassem para reproduzir as chuvas e as nuvens ou até mesmo a luz presente na Terra, não eram mais reais do que efeitos cinematográficos para fazerem com que os colonos não se sentissem tão artificiais, tão iguais dia após dia, trancados dentro de uma caixa prateada, olhando fotos dos mares de ondas ferozes inexistentes e filmes onde romances só ocorrem nas areias do planeta-mãe, rodeados do céu azul-escuro cintilando de estrelas, ao longe os montes verdes e a lua resplandecendo com seu reconfortante brilho pálido, abraçando os amantes como ali é impossível. Aquele satélite natural gigantesco e negro, sem luz, sem romantismo, sem imagens abstratas que 
povoam as mentes das crianças que tem a sorte de nascer naquele lindo planeta.

   Aquele lindo planeta onde estivera tempos atrás, fazendo tudo o que sabia fazer, derramando sangue pelos mares azuis, criando chuvas não de estrelas cadentes, mas de mísseis, carregando consigo as lâminas da morte e o eterno nome gravado em sua alma e em cada segundo de sua vida. O Deus da Morte entregue ao destino, sem necessidade de fazer aquilo que julgava ser a única coisa que sabia fazer, assistindo as pessoas viverem ao seu redor, felizes, como ele não poderia jamais ser. Não ele. Não o ex-soldado com as mãos manchadas de sangue. Não aquele jovem que nunca tivera para onde ou quem voltar. Não o Deus da Morte.

   A janela range, agora que está fechada pelas abas de madeira, a chuva insistindo em entrar pelas frestas. Onde estaríam os outros agora? Todos eles certamente aproveitando a paz que ajudaram a conquistar, brincando e rindo com as pessoas que amam e que os amam. Seus nomes eternamente gravados em sua memória... seus parceiros de guerra... Wu-Fei, Quatre, Trowa... todos felizes... mas falta alguém... o Espírito do Espaço, onde está ele? Onde está Heero Yuy?

   Um forte barulho e a corrente se arrebenta, a porta abre com toda a força, batendo na parede. Duo dá um passo para trás, surpreso com o som inesperado e aguardando para ver se alguém surgiria dentre a cortina de pingos d'água, se haveria algum responsável pela estrondosa entrada além do próprio vento. Um rapaz entra de cabeça baixa, a água escorrendo pelo seu corpo ensopado e formando poças no chão, ele caminha lentamente para o meio da casa e encara o piloto. "Heero!", Duo fica ainda mais surpreso, "Qua diabos está fazendo aqui e... Por que estragou minha porta? Ah... você e suas idéias..." vai até a porta, mas a corrente arrebentara e já não há como mantê-la fechada. "Espero que tenha bons motivos para a alegre visita...".

   Heero observa o outro jovem, que travava a porta com uma cadeira. Aguarda até que termina sua tarefa e pára, fitando-o, esperando alguma palavra. "E aí? Não vai dizer nada? Bem, então acho que está nas minhas mãos fazer você falar. O que está fazendo aqui?". O piloto do Wing Zero vai até o outro, olhando-o séria e fixamente nos olhos, o que faz Duo botar as mãos na cintura e prosseguir observando-o com as sombrancelhas erguidas, aguardando alguma palavra. Um longo período silêncio se segue, Heero baixa a cabeça e então volta a encarar o outro piloto. 

   "Você tem uma última missão." 

   "Uma missão? Como assim? A guerra já acabou!" 

   "Mas ainda há quem dependa da guerra e quem acredite nela. Você precisa eliminar quem não carrega a paz dentro de si, quem não consegue se adaptar." 
   Duo permanece em silêncio, fitando confuso o amigo. "Heero... você tá legal?", o rapaz novamente está de cabeça baixa, como que procurando palavras. 

   "Você precisa me matar"

   Novamente silêncio, a chuva parece acalmar-se. "Você não pode estar falando sério, e se está, enlouqueceu completamente! Como vem me pedir pra te matar? Acha mesmo que vou fazer isso?!". Heero repentinamente golpeia no rosto o amigo, e o faz isso novamente sem esperar que se recupere, então pára e novamente permanece apenas observando-o. "O que deu em você? Enlouqueceu?!", Duo segura o punho que novamente vem acertá-lo, a força do amigo é surpreendente.

   "Você precisa me matar, Duo, ou vai esperar que eu lhe mate?", Heero é empurrado, o outro piloto se afasta. "Por que me pede isso? Se você quer morrer, se mate! Não venha esperar que outro vá tomar sua culpa!"

   "Não posso fazer isso. Já não posso matar." 

   "Ah, e eu posso simplismente aceitar a maravilhosa proposta e ficar feliz pela incrível oportunidade de finalmente acabar com você? Por que essa loucura repentina de querer morrer?" 

   Um estranho brilho toma conta dos olhos do piloto, pareciam transbordar de uma tristeza profunda, fecham-se por um instante. "Nenhum deles sabe como é sentir sua única razão esvair-se e desaparecer junto com as últimas cicatrizes de uma batalha. Nenhum deles sabe como é ver o inimigo cair e olhar ao redor sem ver nada, ter a mente completamente vazia de qualquer pensamento, sem ter idéia de para onde ir... Eles tem para onde voltar, eles sabem que sempre terão alguém que os espera de braços abertos e olhos fechados para o que fizeram, para as vidas que destruíram, para as mágoas que carregam... que estão dispostos a curar. Eu não tenho para onde voltar, não tenho alguém que pode me ver além do sangue que cobre minha alma e meu passado. Esse passado obscuro... como posso me livrar dele? Como?!" Heero abre os olhos "Não há maneiras de se apagar o passado sem antes exterminar o presente. Não aprendi outra forma de fazer isso, não fez parte do meu treinamento, não me ensinaram que rumo tomar depois que já não houvesse lugar no universo para uma criatura cujas habilidades sempre tem como fim o assassinato, a morte. Já não há lugar para essa criatura. Já não há lugar para mim. Faça como fez com os gundams, máquinas de guerra, pense que sou só mais um, só mais uma máquina."

   "Heero..." Duo não sabia o que dizer. Talvez não houvesse reconforto para aquele rapaz, no fundo sabia que suas palavras eram verdade. Ele não passava de uma máquina, sem sentimentos e sem qualquer habilidade além do que lhe fora programado: matar. 
   "Você não pode fazer isso, Heero! EU não posso fazer isso! Por que me pede, por que não escolheu outras mãos para segurarem essa arma contra você?! Há mais quatro pilotos além de você, se quer que um deles puxe o gatilho, posso até entender esse desejo. Mas não posso ajudá-lo. Me desculpe, é impossível."

   "Sim... além de nós existem mais três pilotos gundam, mas só há um que pode fazer isso... Duo, essa missão é sua." 

   "Por quê? Por que não pode derrubar outra porta e pedir para outra pessoa?! Coloque nessa sua cabeça dura que não vou fazer isso!" Heero pega uma arma que estava presa em sua cintura e fica observando-a, o cabo trabalhado para se adaptar as mãos do assassino. 

   "Você é o que menos se importaria em simplismente puxar o gatilho e acabar logo com isso." Heero lentamente ergue o braço e mira em Duo. "Talvez você não tenha entendido. Se você não aceitar acabar com isso, terei de prosseguir fazendo aquilo que nasci para fazer." Um estalo... a arma estava pronta para atirar, o Deus da Morte não consegue pensar em como fazer Heero mudar de idéia. Ele não podia desistir assim... como poderia prosseguir sabendo que ele já não vivia? "Esse cabeça dura...", pensa Duo, "É bem capaz de atirar em mim, já quase fez isso uma vez. Ah, Heero Yuy, eu odeio você". Duo corre até o outro piloto, e segura seu braço. 

   "Maldito louco! Por que vem me infernizar, logo eu?! Peça pro Quatre... bem... Peça pro Trowa, ou melhor, o Wu-Fei que sempre quis acabar com você, peça pra ele e tenho certeza de que ele não vai pensar duas vezes antes de aproveitar essa oportunidade que eu só não aproveito porque..." 

   "Porque...? Você é ou não o Deus da Morte?" 

   "Cale a boca!"
   Duo consegue tirar a arma da mão de Heero, joga-o contra a parede e o mantém preso com o braço contra seu pescoço. 

   "Nenhum deles...", Heero tenta falar, olhando o outro diretamente nos olhos, "Nenhum deles aceitaria, todos de alguma forma criaram algum tipo de afinidade, mesmo que remota, a ponto de não querer minha morte. Todos eles passaram a se preocupar se estou vivo ou morto. Você é uma exceção, Duo... você não se importa."

   "Não seja idiota!", o Deus da Morte faz com que Heero bata violentamente contra a parede. "De onde tirou que não me importo com você?! Em toda santa missão fiquei me perguntando onde você estaria, se estaria bem, quando voltaria... E você acha que de todos sou o que menos se importa?!", ele fecha os olhos, "Se algum de nós alguma vez já se preocupou com você, tenha certeza de que fui eu...". Ele se cala. Os olhos permanecem fechados a medida que lembranças enxem sua mente, as vezes em que se preocupara, que não descansava sem saber onde ele estava. 

   O que é isso? Ele alguma vez se preocupou com os outros três?

   Duo abre os olhos repentinamente e solta Heero, pega a arma no chão e olha-o fixamente nos olhos. 
   "Não faça isso...", mira a arma no peito do amigo, que permanece imóvel, olhos fixos nos seus. "Não faça nenhuma bobagem." Estende a outra mão e deixa cair as balas, segurando-as com força. Heero tenta pegar as balas mas é detido com um forte golpe, que o faz cair. O piloto do Deathscythe joga a arma no chão novamente e corre até porta, abrindo-a e desaparecendo na noite.
 

Mine, immaculate dream, made breath and skin
I've been waiting for you

   "Por que você quer morrer agora, Heero? Por que pelas minhas mãos? Por que não tenta esquecer o passado e tentar novamente, como todos estamos fazendo, todos, nós cinco temos feridas incuráveis e lutamos dia após dia para ao menos suportá-las, essa é nossa luta infinita. Não entende que ninguém poderá lhe ajudar, que essa luta é sua? Não posso fazer o que me pede, amigo, sem chance. Parece que o Deus da Morte aqui já se aposentou, ou essa minha face adormeceu junto com aquele gundam, meu parceiro de assassinatos, quem sabe até desapareceu junto com ele.
   Seu tolo... é muito mais... muito mais...
   E logo eu... por que logo eu?"

Signed, with a home tatoo
Happy birthday to you was created for you
Can't ever keep from falling apart at the seams
Can't I believe you're taking my heart to pieces

   Duo pára diante de uma grande avenida quase vazia a essas horas da madrugada, o reflexo dos faróis ilumina o asfalto molhado, um semáforo brilha, à toa, pois a avenida já se encontrava vazia, mas ele permanecia trocando suas cores e guiando um trânsito inexistente. Um breve pensamento desconexo surge e o jovem piloto percebe o porque de estar ali parado, observando as gotas da chuva desenharem círculos no chão, sem vê-los realmente.

   Ele estava sentindo uma estranha felicidade. Fora ele quem Heero procurara... ele, não o nervoso Wu-Fei, não o silencioso Trowa, não o compreensivo Quatre... mas sim ele, Duo Maxwell... E quem era ele? Ah, sim, agora lembrava. Ele era aquele que não se importa. Mas ainda assim aquela felicidade... por quê? Felicidade ou... esperança? Esperança de que não fosse só por isso. Esperança de que fosse porque... Heero confiara nele, sim, confiara, como confiara diversas vezes como colega de missão, mas agora era diferente, confiara como amigo. Heero precisou de um amigo e foi Duo quem procurou.

   "Ah, céus... já é bem tarde para as crianças ficarem na rua."
   Ele se desfaz de seus pensamentos sem sentido, inúteis, na verdade. Heero mais pareceia tê-lo considerado superficial o suficiente para não se importar com um pedido como aquele 'Mate-me'. Idiota. Fora chamado de superficial... e não amigo. E agora ficava juntando peças inventadas para formar a imagem que lhe agradava: Heero dando-lhe algum valor.
   De que importa receber valor daquele maluco? Por que seus pensamentos agora voavam procurando sinais como aqueles? Deveria receber reconhecimento pelo que? Por que ficar feliz pensando que, se houvesse qualquer sentido oculto naquilo, Heero o considerava um amigo? Por que isso significaria ser correspondido?
Correspondido?!

Oh, it'll take a little time, might take a little crime
To come undone now

   Duo sentia o vento gelando cada vez mais seu corpo ensopado pelo temporal, a chuva batendo com força em seu rosto de forma a machucar seus olhos enquanto corria pela noite o caminho de volta para casa. A velha peça que invadira, literalmente, e tomara como casa, ou pelo menos um teto para protegê-lo de um tempo como aquele. E de que adiantava ter um teto se ele corria dentro da tempestade?
   Correspondido.

   "Isso parece conversa de garota..." mumura para si mesmo e sorri achando graça nos próprios pensamentos.

   Toda a preocupação... quase obcessão pelo companheiro piloto que roubara as peças de seu mobile suit, que lhe explicava a situação sempre depois que todos já haviam descoberto, que lhe fazia seguir planos que nem se dava ao trabalho de dizer que eram planos e não acidentes. Ele e suas missões que não admitiam erros, diferentes das de Duo; ele que era sempre o herói. Por que o cara sério e fechado é sempre o herói? Aquele que fazia milagres e dizia que apenas cumprira sua missão. Não era humildade. Ele realmente acreditava nisso. Por que tanta curiosidade quanto à ele? Por que logo ele? Por que não Trowa, que era igualmente, se não mais, silencioso e complexo, ou Quatre com suas vinte e nove irmãs mais velhas e seu coração que abraçava todas e ainda sobrava espaço para estranhos, ou Wu-Fei e seu casamento adolescente destruído juntamente com a vida da jovem esposa?

   Tinha que ser Heero. Talvez por sua profunda dor, seu coração que se encontrou tão partido que para não destruir o ser inteiro, destruiu a si próprio, deixando um corpo vazio de emoções. E agora aquela emoção que não podia ser destruída justamente por ser o que o despedaçou: o arrependimento. O exílio ao qual se jogou, entre todos mas jamais menos sozinho, a culpa eterna de uma morte que pareceu carregar em si todas as que se seguiriam. A história que chegara aos ouvidos de Duo e o fez sentir algo estranho... como que uma vontade sem sentido... um desejo profundo de abraçá-lo e reconfortá-lo, dizendo que nada daquilo importava, que o bem que ele fizera pelo universo justificava cada vida brutalmente terminada, que ele não fizera nada mais do que ser o mais fiél soldado que já pisou no campo de batalha e por sua bravura em sufocar os próprios sentimentos para seguir em suas missões ele se tornou o símbolo da luta e da revolução que salvou a Terra e as Colônias de se destruírem entre si, aquele que travou o mais duro combate representando todo o espaço e mostrou a cada ser humano a dor da guerra. Seu anseio pela paz era o anseio de todos os humanos que abandoram seu planeta natal para viverem nas gigantescas construções metálicas em meio as estrelas. E no fim, todo o espaço encontrara sua paz. Então por que ele não? Sua missão estava completa, os meios estava justificados. Por que viver no passado, ainda mais quando o passado dói tanto? Queria dizer-lhe, queria fazê-lo entender que não estava sozinho, que se ele pensava ser o único a ter que lutar contra tão arrebatadora mágoa, era porque ainda não olhara no fundo dos olhos púrpura do que fora o Deus da Morte, da Morte pois era isso tudo que viu diante de seus olhos, de seus lindos olhos púrpura, jamais um milagre para salvar aqueles que amou. E agora Heero, provando que milagres jamais seriam vistos por aqueles olhos que se revestiam de uma armadura quase impenetrável, de um comportamento alegre e muitas vezes quase insano em uma animação e felicidade que jamais seriam possíveis se não fosse o que eram: um máscara. Era essa máscara tão convicente a ponto de não permitir que Heero visse a dor que se escondia por detrás dela? Não ver que aquelas lágrimas eram também suas lágrimas? Ele não percebia que esse tempo todo estivera ao seu lado alguém que dia após dia matava nos campos de batalha, mas morria pelas próprias mãos, tão idêntico à ele? Alguém com quem poderia contar, que entenderia, que estava disposto a ajudá-lo se houvesse alguma forma, e que jamais riria se o visse chorar por tudo aquilo, pois também choraria. 

   Talvez fossem mágoas incuráveis. Mas ele não era o único a tê-las. Talvez ele não soubesse que esse tempo todo alguém estivera ali, alguém que não se recusaria a ouví-lo, e entenderia cada palavra, cada sentimento confuso que se confundia dentre tantos... Como queria ajudá-lo... como queria vê-lo sorrir. Sentiria quase como se fizesse a si mesmo sorrir, de verdade, não sua máscara.

We'll try to stay blind to the hope and fear outside
Hey child, stay wilder than the wind
And blow me into cry

   "Inferno!" Duo chutou com força o pequeno portão, com ódio de cada pensamento que fazia seu coração disparar ao pensar que se aproximava de uma verdade que ele mesmo desconhecia, a verdade que preferia ignorar a ter que perceber, e assumir para si mesmo, que o que sentia por Heero era muito mais do que simplismente uma preocupação de colegas, visto que jamais se preocupara nem um pouco com os outros três. Também não era um senso de competição por ter sido, desde o início, enganado diversas vezes, logo ele, um ladrão nato, fora roubado. 

   "Heero, não seja tolo de seguir com essa idéia absurda..." sussurrou para si mesmo enquanto entrava na pequena casa, "Se você não acha que sua própria vida vale a pena, pense na vida de outra pessoa que seria arruinada junto com a sua, seu idiota" Ele procurou pelo interruptor e ligou a única lâmpada da casa, aproveitando a luz para encontrar a cadeira que anteriormente lhe servira como tranca para a porta. "Embora a vida dessa outra pessoa provavelmente tenha...", forçou a cadeira contra o trinque, certificando-se de que estava bem firme, "menos importância pra você do que a sua própria"

   "E quem seria a outra pessoa?"

   Duo olha surpreso para o rapaz, sentindo um misto de raiva por ele estar ali naquele momento tão confuso, e alívio por ele estar bem.
   "Não sei, acho que não existe. Você que devia saber."

   Heero rápidamente vai até Duo, que em um reflexo segura firmemente o revólver que ainda estava preso a sua cintura.
   "Você está certo. Não existe. Não existe que chore por um assassino, por uma máquina"

   "Claro que existe, seu tolo! Ou ainda não percebeu que não vou deixar você fazer isso?!"

   "Então você..." Heero se afasta do outro rapaz.

   "Aplausos, ele descobriu!" Duo ergue os braços e sorri ironicamente e prossegue falando em seu modo cômico, sua máscara. "Eu sou a outra pessoa, aquela pessoa idiota que se preocupa com você." 

   "Duo..."

   "O que foi? Acho que agora é a hora em que você DESAPARECE!" Duo dá as costas indo para o outro cômodo, tentando conter o nervosismo que fazia-o deixar de sentir o próprio corpo e não ouvir muito mais do que o próprio coração pulsando alto dentro de seu peito. Então sente a mão segurando seu ombro e antes que possa fazer ou pensar qualquer coisa, sente também o golpe forte que o faz cair e perder a conciência, mas não sem antes ouvir o sussurro.

   "Estamos quites."
 

Who do you need, who do you love
When you come undone?

   "Me enganou de novo" Duo ri e suspira, sentindo que havia alguém ao seu lado, muito próximo, na verdade. Abre os olhos e percebe que já não enxerga cor alguma, porém sua visão monocromática era clara o suficiente para perceber que quem estava ao seu lado era Heero. O chão duro e frio fazia seu corpo doer reclamando do desconforto, ele silenciosamente se apoiou em um braço para ver o rosto do amigo. "Não... não pode ser..." O sangue reluzia vermelho no cenário preto e branco, ele leva mão até o peito do jovem, ele não se movia, nem ao menos respirava, Duo olha a própria mão brilhando com a cor vermelha. "Não... você não fez isso..." A arma caída ao lado do corpo. "Não... não mais um... não de novo..." Os olhos sem brilho abertos como se fitassem o nada que preenchia o espaço até o teto, o chão repentinamente assumindo o tom vermelho como um tapede a se espalhar a partir do corpo sem vida de Heero. "Sou mesmo o Deus da Morte, não sou?" Duo vê o sangue subindo por suas pernas e pelo braço com o qual se apoiava, em um salto pôe-se de pé, mas a mancha vermelha insiste em tomar conta de seu corpo, suas mãos já pingavam com o denso líquido que escurecia cada vez mais e mais até tornar-se completamente negro. "Não... isso não está acontecendo... Você não pode fazer isso... Droga, Heero!!"

Who do you need, who do you love
When you come undone?

   Duo abre os olhos repentinamente, ofegante, e se assusta quando vê que realmente havia alguém ao seu lado, e realmente era Heero, porém as cores haviam voltado, e esperava que aquilo que vira não passasse de um pesadelo. Hesitante, novamente se apóia sobre um braço para ver melhor o amigo, fecha os olhos e deixa escapar um suspiro de alívio quando percebe que ele estava bem, apenas adormecido, sem sangue, sem armas. "Que susto, hã?" Sorri e volta a abrir os olhos, imediatamente percebendo o olhar fixo dos olhos azuis de Heero a encará-lo. Apesar da expressão sempre séria do outro piloto, Duo permanece sorrindo, desviando o olhar, senta no chão. O silêncio parece permanecer entre ambos por uma eternidade, até que Heero também senta, logo ao lado do colega.

   "Por que você não desapareceu? Você é expert nisso. Por que dessa vez não simplismente evaporou e sumiu do mapa?" 

   "Não tenho para onde ir."

   "E alguma vez já teve?"

   "Não. Mas tinha coisas a fazer. Diferente de agora."

   "De qualquer forma... por que você me bateu?! Você parece que não regula."

   Heero sorri quase ironicamente.
   "Não gosto de dívidas, e você fez o mesmo pouco antes. Só deixei tudo em igual."

   "Ah, vai entender." Duo levantou e caminhou pela casa, se espreguiçando e bocejando. Puxou a cadeira e abriu a porta, e lá estava a luz da manhã, a chuva da noite anterior ainda permanecia em pequenas gotas escorrendo das folhas das árvores e nas poças na beira da rua.
 
 

   "Queria que você ficasse quieto."

   "Hã?"

   "Você me atrapalha, e eu precisava pensar."

   "Ah, o senhor concentração... você faz um monte de loucuras e sou eu quem atrapalha..."

   O piloto do Deathscythe permanece parado na porta, olhando a rua, algumas crianças passavam em pequenos grupos, animadas falando alto e correndo, os menores saltando nas poças e fazendo os mais velhos puxarem-nos e falarem sobre suas mães ficarem bravas pelas roupas molhadas. Ele sorri as vendo e sente uma estranha tristeza. Ele nunca estivera entre essas crianças.

   "Heero... você ainda quer morrer?"

   A resposta não chegou, o jovem parou ao lado do outro, também observando a rua. Seus olhos brilhavam e refletiam a luz externa, ele olhou para o outro. Duo percebe, então, que este segurava as lágrimas. Sentiu que Heero finalmente vira através de sua máscara, que finalmente encontrara sua verdadeira face, que carregava consigo a mesma dor que ele conhecia.
   Alguém em quem ele pode confiar.

Words, playing me dèja-vu
Like a radio tune I  swear I've heard befor

e

   "Por que eu... por que nós... se tudo acabou, ainda estamos assim, ainda estamos... perdidos?"

   "Eu não sei... tudo que sei é que, mesmo que seja dolorido, temos que continuar... e não há forma de trazer de volta o passado para mudá-lo, mas o presente ainda pode ser salvo. Não conseguimos apagar o que se foi, mas com certeza podemos lutar para... compensar tudo enquanto ainda estamos aqui."

   Uma lágrima escorreu pelo rosto de Heero, que abraçou Duo com força, surpreendendo-o segurando-o firmemente em seus braços.
   "E como se faz isso, Duo?"

Chill... is it something real
Or the magic I'm feeding off your fingers?

   "Ainda tento descobrir. Mas fugir... está fora de questão."

Can't ever keep from falling apart, at the seams
Can't I believe you're taking my heart to pieces?

   "Você é muito mais forte do que eu, Duo..."
   Duo sorri com as palavras do amigo, já não enxergava claramente, as lágrimas impediam. Fechou os olhos tentando sentir ao máximo aquela sensação, os braços de Heero abraçando-o fortemente, como se estivesse prestes a cair e ele fosse a única pessoa a quem pudesse pedir ajuda, apoio. E talvez fosse mesmo.

   "Não sou não... e apesar do que costumo dizer, sou um grande mentiroso. Um covarde, na verdade... assim é mais fácil... não é?"
   O piloto do Deathscythe quase que inconcientemente beija o rosto do outro, e imediatamente se arrepente quando sente os dedos de Heero deslizarem entre seu longo cabelo, mas ele estava se afastando... Por quê? Ele quebrara aquele momento com sua atitude idiota, e se amaldiçoava por isso. Brigava consigo mesmo dentro de sua mente quando se deu conta do olhar fixo de Heero, sério, intimidador e quase que assustador se já não o tivesse visto tantas vezes, sempre no intuito de afastá-lo como um aviso de "Mantenha distantância", contudo, não parecia ser o que pedia agora, já que seus braços ainda envolviam o corpo de Duo, seus dedos moveram-se levemente, ainda envoltos pelo longo cabelo castanho do outro piloto. 

   "Heero... eu...." Duo não sabia o que falar, nem se deveria falar algo, porém aquela situação estava deixando-o cada vez mais nervoso, o olhar penetrante de Heero parecendo analizá-lo incansavelmente, sem uma palavra, sem um gesto, como que tentando entrar pelos olhos do amigo e desvendar cada pensamento. O que Duo quis fazer, afinal, o que se passava na cabeça do piloto do Wing Zero sempre fora um mistério. Mas ele não conseguia esconder nada quando ficava nervoso, como naquele momento, era péssimo em fingir, ainda mais sentindo-se um tolo sabendo que seria inútil, mesmo que tentasse. Mas se ele não dizia nada, o que deveria fazer?
Nada. Qualquer pensamento de ação, hesitação ou dúvida esvaiu-se quando sentiu os lábios macios de Heero junto aos seus, seu coração parecia ter parado, mas e daí? "Morrer agora não seria má idéia, na verdade, seria perfeito.", pensou Duo.
 

   Duo abriu os olhos lentamente, sentindo a derrota como que uma névoa fria a abraçá-lo. Passou o olhar por cada destroço no chão, o fogo ainda queimando as madeiras quebradas. Novamente estava sozinho, novamente amou e novamente perdeu, sem poder ao menos lutar por isso. Olha as próprias mãos, pequenas mãos sujas, a pele delicada de uma criança com não mais de oito anos. Levantou a cabeça e olhou para o lado, destruído, como tudo ao ser redor, o altar principal, a cruz quebrada e o rosto de Cristo irreconhecível. Ele foi até diante do que sobrou da imagem e agachou-se, pegando os pequenos cacos do que fora o rosto do Salvador, juntando-os e contemplando um único olho azul, parcialmente fechado, carregando em si toda a agonia de seu corpo moribundo e toda a dor e pecados da raça humana. Estava a beira da morte, odiado pelos que salvara. Contudo, não estava derrotado, morrera sabendo que sua missão estava cumprida, que seus amados carregavam consigo a fé necessária para fazer com que suas palavras perpetuassem por toda a eternidade.

   Mas ele não pensou nessas coisas naquela época, era muito pequeno, tudo que sentia era uma dor arrebatadora que quase derrubáva-o a cada passo. Levantou novamente e caminhou até um destroço, de baixo dele saia uma braço revestido por uma roupa preta, a mão ensanguentada estava fechada com força. Duo cuidadosamente abriu-a com suas mãos pequenas, seus olhos enxeram-se de lágrimas ao ver o crucifixo, suas pontas pontiagudas cravadas na palma daquela mão fria e branca, já castigada pela idade.

   "Padre..." Um murmúrio ao meio de tantos, a cidade estava destruída, morta, até onde os olhos do pequeno garoto podiam enxergar. Pega o crucifixo cuidadosamente, limpa o sangue. Em um relançe, vê um corpo caído perto de si, completamente coberto por vestimentas negras, seu rosto também coberto. Ele levanta-se sem sentir o próprio corpo, como que impulsionado por uma força que não era sua, joga-se de joelhos ao lado do corpo inerte, sem vida, descobre seu rosto e vê as feiçoes de dor profunda naquele rosto branco, que tantas vezes sorrira e lhe dera a calma e o carinho para prosseguir, sua voz parecia ecoar e dizia "Prossiga, Duo, você é o menino mais forte e mais doce que já conheci. Jamais desista..."
   "Irmã..."

   Agora uma outra voz gritava alto, mais alto do que a serena prece da freira, mais alto do que os lamúrios da cidade, era a voz daquele homem, aquele homem que o salvara e o transformara em um soldado, em um assassino. Sua voz enxeu a mente de Duo e suas palavras não eram carinhosas como as da freira, porém ríspidas e rudes:

   "VINGUE-SE!"

   "DUO MAXWELL... VINGUE-SE!"

   Duo acorda sobressaltado. Só mais um pesadelo, mais um, como todos, toda a vez que fechava os olhos procurando por descanso era perturbado por memórias muitas vezes fragmentadas, algumas verdadeiras, outras das quais não tinha certeza. Ele estava deitado no velho sofá, encolhido e abraçando o próprio corpo com o frio do dia anterior, não percebera o quão frio estava. A porta aberta deixava entrar um facho de luz.
   "Heero... Heero?"

   Onde ele estava? Não ouviu resposta, mesmo quando chamou seu nome mais alto, levantou-se sentindo a mesma sensação de quando viu sua amada freira morta rodeada pelas ruínas, aquela que lhe reconfortara como a mãe que jamais conhecera. Aquela força desconhecida o fez andar como que deslizando sem ao menos tocar o chão, como um fastasma penando e vagando sem um corpo. Temia ver com seus olhos o que via projetado em sua mente. Ele não podia novamente carregar o nome de Deus da Morte... Não novamente... Não Heero... 
   "Heero!"

   Duo vai para a rua, sua respiração acelerada pelo pânico, ele corre para dentro, nada, em lugar algum... Onde ele estava? Não podia perdê-lo também, como perdera os outros, não podia ver sua vida sendo tirada como vira as dos outros, como se estivessem nas mãos de Duo mas ele as visse escapando entre seus dedos como a areia em uma ampulheta. Sem saber o que fazer ou pensar, ele vai em direção ao velho sofá buscando algum apoio, quando percebe a folha de papel caída no chão, sem hesitar, a pega rápidamente e a abre, era a folha do único calendário que tinha, os riscos na margem do papel revelando que a caneta se recusara a escrever. Mas havia uma palavra, uma só, solitária dentre o espaço perfeitamente branco:

   "Obrigado"

   O piloto sente os olhos enxerem-se de lágrimas novamente, uma escorre pelo seu rosto e molha o papel.
   "Nossa, como estou sensível ultimamente..." ri de si mesmo. Heero partira novamente, como sempre fazia, e provavelmente deixara em suas mãos o pedaço de papel com a breve, porém absoluta palavra. Ele dissera que só desaparecia na época da guerra porque tinha onde ir e coisas a resolver. Certamente tinha coisas a resolver.
Talvez voltasse. Duo puxou o cordão de seu pescoço e tirou do esconderijo entre suas roupas o crucifixo dourado, segurando firmemente pediu, rezou, para que ele voltasse, e que estivesse bem.
   "Com certeza está bem... afinal, é você, Heero... o cara que faz milagres."

Lost, in a snow filled sky, we'll make it alright
To come undone now
 

   Heero traçou o caminho perfeitamente, as ruas, tudo, sua memória, como sempre, estava perfeita. Abriu o pequeno portão, o vento forte gelando seu corpo e lhe dando um grande desconforto, a pouca luminosidade também não ajudava, afinal, era dia mas estava um tanto escuro. Simulação de crepúsculo. A casa estava lá, da mesma maneira, e esperava que estivesse diferente? Fazia pouco mais de dois meses que saíra dali, fugindo de sua dor e procurando por um novo eu, por uma parte desconhecida que vivia adormecida dentro dele. Queria sua humanidade de volta, e a conseguira, lutando para reforçá-la e afastar aquelas sombras que sempre estiveram em sua vida
   Só agora era digno de tentar.
   Digno de... ser amado. Só dessa forma poderia corresponder, lutando contra as limitações que impôs ao próprio coração.

   Bateu na porta, nada. Foi até a janela, fechada e trancada por dentro, tentou espiar pela fresta onde faltava uma madeira. Tudo escuro lá dentro. Ninguém, nem luz, nem Duo. Onde ele estava? Teria ido embora? Não teria esperado seu retorno? Como fora tolo... simplismente agradecendo... deveria ter escrito o que pretendia, e avisado que seu maior desejo era voltar quando pudesse dar a ele tudo que receberia de alguém que, apesar de magoado, não fugia de seus sentimentos. Ele dera os primeiros passos, aquele que devem ser dados sozinhos, para também deixar de fugir do que inundava seu coração. Agora que conseguira entender o que isso significava e começar a sentir os pensamentos e ter os sonhos que antes se proibia de ter, precisava que Duo novamente o ajudasse, agora para jamais perder isso novamente. 

   Mas ele não estava lá. A casa estava mal cuidada, as plantas mortas e a porta ainda levemente caída para um lado - não que estivesse diferente antes. Ele não estava lá... ele fora embora, e como poderia ser diferente? Ele não podia ser culpado por não ler pensamentos. Se ele tivesse partido... não importava, tinha que encontrá-lo. E se essa partida fosse um aviso de que se cansara, desistira de esperar ser correspondido? Não podia ser... Heero perdera. 
   "Acho que..." o piloto abraçou o próprio corpo, tentando encontrar em si mesmo o calor que anseava desde que partira dali naquela noite, deixando Duo sozinho sem saber onde ele estaria ou o que estaria fazendo ou sentindo. "Acho que é tarde demais..."

   Ouve um riso baixo, conhecido, tentando conter-se, mas claramente vindo de alguém que não sabia ser silencioso, por mais que quisesse ou precisasse. Claro que mesmo que tentasse, não seria discreto, afinal, era Duo. E era seu toque que sentia em seu ombro gelado, causando-lhe um calafrio com o choque de temperaturas.
"Tarde? A noite só começou."

   Heero sorri e finalmente olha o outro rapaz. Parecia cansado, muito cansado, como se não dormisse direito há tempos. Não conseguia entender porquê nunca havia percebido aquele sentimento de Duo, bem... talvez nem ele mesmo soubesse. Certamente Heero não havia nem ao menos pensado na hipótese, contudo agora parecia tão óbvio, tão sensato, o carinho e o sentimento sem descrição que lhe inundava só ao ver seu rosto.
   "Você está voltando... pra ficar... não é?" Duo perguntou, uma forte insegurança em suas palavras.

   "Nessa casa? Nem pensar."

We'll try to stay blind to the hope and fear outside
Hey child, stay wilder than the wind
And blow me into cry
 

   "Heero... onde você esteve?"

   "Hã?" Heero é desperto de seus pensamentos com a voz do outro rapaz. Ele respira fundo e deita na grama, a cabeça sobre os braços. Acima dele, muito alto, as nuvens, e entre elas o sempre presente metal. Mas agora já não parecia tão ruim, tão opressor. Na verdade, o brilho azul que emanava dele até parecia com o céu da Terra. Não era tão mau. Na verdade, era bonito. "Tentando sair dessa colônia e ir pra Terra. Pra falar com... com a Relena."

   "Ah... com... a Relena?" Duo tenta não deixar transparecer o ciúme que sentiu ao ouvir esse nome. Sabia o quão importante a jovem era para ele, e fora a primeira pessoa com quem realmente se importara em sua vida, e temia que ainda se importasse, temia que a amasse mas por algum motivo não pudesse estar com ela. Temia ser a "segunda opção".

   "Se eu já devi explicações para alguém, foi pra ela. Ela claramente se importa comigo, sempre se importou, desde o início. E ela é minha protegida... você sabe... jamais deixará de ser. De qualquer forma, achei que ela merecia saber como eu estava e como estaria, que eu já tinha me desfeito dos meus pensamentos suicidas, e que estaria bem, ela já não precisava se preocupar se estou perdido. Não estou mais."

   "Você falou... de nós?"

   "Bem..." Heero sorriu "Não exatamente."

   "Não falou que sou eu." Duo examina seu relógio de pulso... estava estragado. "Por acaso tem vergonha?"

   "Não, não é isso."

   "Ok. Se você prefere não dizer nada a ninguém..."

   "Ouça, Duo... Isso realmente foi estranho no início... acho que uma das coisas mais estranhas da minha vida, por não ser esperado, foi aquele dia, o primeiro dia. Não por você ser um rapaz, mas por ser você. Por ser Duo, meu ex-companheiro de guerra, o cara que me salvou e que eu salvei várias vezes, e uma das pessoas que mais me incomoda." Duo riu assim como Heero... ela ainda estava no presente. "Você e seu jeito irresponsável e indiscreto... indiciplinado... um soldado como você é um perigo. Você sempre foi simplismente humano demais para uma arma. E nós todos éramos armas naquela época. Quando fui à Terra conversar com Relena, ainda era estranho demais, demais, pra ser dito. Logo você... a última pessoa... bem, uma das últimas pessoas do mundo, por quem eu pensaria em me apaixonar. Na verdade, nunca pensei em paixão, ou amor, ou qualquer coisa do gênero."

   "E isso mudou?"

   "... Relações se constroem com o tempo... você mesmo me disse isso. Desde o início fomos diferentes um pro outro, você sempre foi, apesar de eu sempre ter suspeitado da sua sanidade, o mais confiável para mim entre os quatro pilotos. O amor é uma coisa complicada, e profunda, e rara de se encontrar, e ele não simplismente aparece... ele é construído. Nós começamos, o amor é quase uma conseqüência. Inevitável."

   Duo sorriu. Tirou o relógio de pulso e o abriu, já o examinava. "Inevitável? Você disse que quando alguém é diferente, é só tentar e o amor vem com o tempo. Por que você nunca quis tentar com a Relena, hã? Ela é bem especial pra você..."

   "Ela é a pessoa que protejo, não a que amo." Heero suspirou "Ela é quase... a compensação do presente pelo que fiz no passado. Ela é a menina, aquela menina, sempre que a vejo lembro da menina. Inicialmente quis matá-la como fiz com a outra, mas depois percebi que se eu não podia salvar a outra, poderia me esforçar ao máximo para proteger Relena. A admiro, muito. Ela é forte, solitária, mas forte, não é fácil estar no lugar dela, e ela aguenta, ela nasceu para isso, para ser uma líder. Acho que o sentimento dela por mim é o mesmo, admiração e respeito."

   O piloto do Deathscythe sente uma estranha satisfação com o esclarecimento. Embora não duvidasse de que Heero o amasse tanto quanto ele o amava, sempre tinha essa dúvida com relação a Relena, que talvez ela fosse o verdadeiro amor de Heero. Mas não era. E ele entendia o que seu amigo... seu amante, quis dizer. Ficou feliz por ela representar a chance de se redimir com a garotinha que assassinara, que de certa forma fora o que o tornou tão frio como era até pouco tempo atrás.

   "Ei... eu era mesmo em quem você mais confiava? Isso é meio difícil de engolir..."

   "Confiar não seria a palavra certa... Pense da seguinte forma: se eu pedisse, em uma missão, para que você me desse cobertura e matasse os guardas enquanto eu fazia outra coisa, mas chegaria ali e precisava Ter caminho livre. Se pedisse para Trowa, ele provavelmente sairia assim que tivesse alguma aspiração de que deveria estar em outro lugar, naquela confiança de que eu posso me livrar de qualquer perigo sozinho, e portanto não precisava realmente de ajuda. Quatre se recusaria desde o início a participar de uma esboscada e ainda mais de Ter que matar alguém. Wu-Fei... bem... provavelmente nem o teria encontrado para poder pedir. Você, por outro lado, teria seguido exatamente o plano."

   "Ah, então eu sou o obediente."

   "Você mantém sua palavra. Se dissesse que iria ficar, mesmo que eu desaparecesse ou que desse algo errado, que descobrissem você, você daria um jeito de estar lá na hora certa. Porque você dá valor às palavras." Heero espera por algum comentário, que não é feito. "Não é?..."

   "É, pode ser. Sou o cara das palavras." Duo já beirava uma batalha contra o relógio. Concentrado, tentava entender o pequeno esquema e arrumar o que estava errado.
 

Who do you need, who do you love
When you come undone?

   "Observo-o agora, aqui deitado na grama desse parque, na Colônia L2, onde ambos vivemos. Não consigo imaginar como seria minha vida se ele não estivesse aqui, ao meu lado. Na verdade, acho que nem estaria vivo. Teria me matado naquela noite, se não o encontrasse, se não fosse convencido por ele. Se não tivesse ficado perturbado pelo seu comportamento, tão inexperado, repentinamente parecendo se importar comigo de uma forma que eu jamais imaginei, e aparentando não saber disso afinal. Agora lembro bem das vezes em que procurei sua ajuda, o primeiro nome que pensei quando precisei de uma identidade falsa... o que não é realmente uma prova de amor, usar o nome dele para não ser preso na Terra. De qualquer forma, para mim, para a arma que fui, significava algo muito importante. Mais importante, quase definitivo, foi quando fui resgatá-lo. Ele me resgatou uma vez, logo que vim para a Terra. Pensei em Relena quando quase morri naquela praia, mas foi ele que esteve ao meu lado e que me deu um lugar para ficar e descansar. O que não fiz. Roubei as peças de seu mobile suit para concertar o meu e fugir. Quando fui resgatá-lo, ele havia sido preso e torturado para contar sobre nós, sobre os pilotos gundams, mas ele mateve silêncio. Contudo, eu temia que de alguma forma o obrigassem a falar, com o soro da verdade ou algo parecido, e invadi a construção para matá-lo, e me matar também, de forma que nenhum piloto gundam estaria nas mãos deles. Quando cheguei, lembro que fui um tanto frio e ríspido, mas que fiquei profundamente chocado em vê-lo naquele estado, ferido e fraco, preso no fundo de uma cela escura, e, é claro, sem perder seu típico humor. Lembro que apontei a arma para ele e ele disse para que eu atirasse, e quase o fiz, se ele não tivesse gritado "NÃO ACREDITO QUE VOCÊ REALMENTE IA ATIRAR EM MIM!". Avisei que só faria o que me pediu. Depois desisti do meu plano inicial de acabar com nossas vidas, e tentei bolar algo para fugir dali. Ele perguntou qual era meu plano... e eu disse que não o tinha. E ele sempre com seu modo alegre de falar... "Nossa, ISSO é reconfortante." Nunca tive amigos, costumava dizer que tinha aliados. Porém ele era, ele É, meu amigo. Pensei diversas vezes em como prosseguir nas missões se um de nós cinco morresse, porém nunca me passou pela cabeça ver Duo morrendo. Ele tem uma sorte invejável, de nós, era o segundo pior soldado, perdendo apenas para Quatre - que se recusava até a segurar uma arma. Talvez eu soubesse, sem verdadeiramente saber, que precisava dele, e que precisaria pelo resto dos meus dias, saber que ele estaria vivo e bem, comigo ou não, mas bem, e sempre pronto para me estender os braços caso eu me perdesse de alguma forma. Ele sempre o faria, e sempre o faz. É tão simples. Preciso dele e é isso. Só ele tem esse poder que tanto preciso, de manter o passado tal onde deve estar: no passado. Sua energia é contagiante, sua alegria, mesmo que muitas vezes a use para disfarçar sua dor, é algo que faz parte dele, e que, mesmo que ele não perceba, é indipensável para minha própria felicidade. 

   Duo... o vejo agora, deitado aqui na grama verde, ele sentado tentando concertar um mero relógio de pulso. Rio da cena, pois ele não consegue. Ele pilota e se necessário concerta um mobile suit inteiro, mas parece que um relógio de pulso é seu limite."

Who do you need, who do you love
When you come undone?
 

   "Desisto!!" Duo deita no chão, o relógio ainda em sua mão.

   "Duo..." 

   "O que?"

   "Você... é realmente importante para mim... não sei se poderia continuar sem..."

   Duo vira a cabeça, encarando o outro jovem. Aperta os olhos, o que deixa Heero sem entender nada.

   "Você... que bicho te mordeu? Quer dinheiro? Você sabe... não tenho. Se tivesse, chamaria um profissional para concertar esse -  maldito - relógio! É impossível!" 

   "Para você."

   "Tá certo, lembrei que sou só um mero mortal."

   Heero pega o relógio das mãos de Duo, mexe em sua pequena bateria e fecha-o novamente, mostrando-o para o outro. Funcionava novamente.

   "Ah, adivinha! Acho que preciso de você também!"

Who do you need, who do you love
When you come undone?
Can't ever keep from falling apart....

     "Jamais estarei sozinho novamente. Tenho uma razão para viver, para lutar, para prosseguir através da dor e destruir o que me fere. E parece que jamais deixei de ser o espírito do espaço. Cheio de mundos e estrelas brilhantes e ardentes como o sol, como vagalumes em cada canto do infinito. O Espaço não é vazio e frio, afinal, e certamente não é em vão. Está cheio de vida, de cor, de calor, de luz. Sim, sou o espírito do espaço. Carrego essa luz comigo, e Duo está ao meu lado para jamais permitir que se apague."

Who do you need, who do you love
When you come undone?
Can't ever keep from falling apart....
Who do you need, who do you love
 Can't ever keep from falling apart.... 
Who do you love 
When you come undone?
 

VOL.1.COME_UNDONE.END.

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Heero: Ninguém chora por máquinas.
Duo: Eu chorei pelo Deathscythe...
 

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TRADUÇÃO, by Juli M.
Meu, imaculado sonho, feito de respiração e pele
Estive esperando por você
Marcado, com um lar tatuado
Feliz aniversário para você foi criado para você
(Não pode sempre evitar quebrar-se nas emendas....
não posso acreditar que está levando meu coração aos pedaços)
Oh, levará um tempo, poderá custar um crime, para se desfazer agora

Tentaremos nos manter cegos à esperança e o medo lá fora
Ei criança, permaneça mais selvagem que o vento
e me leve às lágrimas...
De quem você precisa, quem você ama,
quando você se desfaz?

Palavras, me causando dèja vú
como uma melodia no rádio que juro já ter ouvido antes
Calor... isso é real
Ou apenas a mágica que vejo sair de seus dedos?
(Não pode sempre evitar quebrar-se nas emendas...
não posso acreditar que está levando meu coração aos pedaços)

Perdidos, em um céu coberto de neve
Faremos tudo certo
para se desfazer agora
Tentaremos nos manter cegos à esperança e o medo lá fora
Ei criança, permaneça mais selvagem que o vento
e me leve às lágrimas...
De quem você precisa, quem você ama,
quando você se desfaz?
De quem você precisa, quem você ama
quando você se desfaz?
(Não pode sempre evitar quebrar-se...)
De quem você precisa, quem você ama
(Não pode sempre evitar quebrar-se...)
Quem você ama
quando você se desfaz?

*Juli cai aos prantos*

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*Um pequeno trecho foi mudado devido à recomendação de uma pessoa cuja opinião eu.. bem.. respeito. Ei, espero que vc goste!* HHehe... hehe.... er... bem................... tipo assim................ Olha lá, um OVNI!!! ... -_-' Valeu a tentativa. Bem, mande sua opinião, ela é muito importante pra me convencer de que devo desistir (Como diriam os caras do Blood: No no, plz no)!! :P       shutuplee@yahoo.com 
      


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