Enquanto a Chuva Cai  
Enquanto a Chuva Cai 


Hadrian Marius
babell@ieg.com.br


 

        
     Chovia torrencialmente no Mundo Celestial quando chegamos. Uma chuva nunca vista antes com seus trovões ensurdecedores e seus relâmpagos iluminando a noite. Tudo isso era fruto do que tinha acontecido a Honorável Vishnu, alguns comentavam. Foi debaixo desta "Tempestade" que cheguei. Resolvi procurar abrigo, não que a chuva me afetasse, mas me incomodava. 

     Caminhei por alguns minutos até avistar uma casa abandonada, onde resolvi me abrigar, mas ao me aproximar notei que já havia alguém lá, alguém que como eu procurava abrigo. 

     Cautelosamente avancei até avistar a luz de uma fogueira que iluminava fracamente o ambiente, sua luz lutando contra a escuridão, revelando apenas um vulto. Um vulto que foi tomando contornos, contornos femininos. Contornos estes que me deixaram surpreso ao vislumbrar o rosto de sua dona: Rakeshi. 

     Rakeshi estava sozinha, encolhida, suas vestes encharcadas coladas ao corpo, seus cabelos escorridos caem sobre a face encobrindo os olhos que estão fixos no fogo que crepita. Seus lábios parecem se movimentar indicando o início de uma fala, mas quando tento ouvi-la, nada diz. Suas bochechas estão avermelhadas e os lábios arroxeados se movimentam num tremor causado pelo frio. 

      Vê-la sozinha naquele estado causou-me indignação.  Porque ela estaria ali? Onde estariam seus companheiros? Onde estará Shurato? Porque a deixou sozinha? Sei o quanto ele é desleixado, mas nunca imaginei que fosse capaz de deixar uma menina sozinha numa noite daquelas. 

     Impossibilitado de fazer alguma coisa resolvi procurar os outros e já me preparava para sair quando um clarão revelou-me a aproximação de um vulto, que vinha por uma das portas que davam para o interior da casa. A preocupação mais uma vez tomou conta de mim. Aquele vulto poderia ser o de um inimigo e eu estava impossibilitado de ajuda-la. Ela permanecia imóvel observando o fogo, parecia não ter notado a presença do estranho. Pensei em gritar, mas desisti da idéia, de que adiantaria? Ela não podia ouvir. Aquela figura avançou até estar sobre a menina, ainda alheia a tudo. 

     "Isto irá te aquecer", a voz chegou a meu ouvido no mesmo instante em que um novo clarão iluminou o interior e uma sombra negra caia sobre o corpo de Rakeshi envolvendo-a. 

     Shurato havia chegado. Ela não estava só afinal, suspirei aliviado. Ele tinha voltado do interior da casa com um cobertor. 

     "Livre-se destas roupas molhadas", passou por ela indo à direção da porta e sumindo na escuridão. 

     Novamente sozinha, ela não havia entendido direito o pedido dele, mas confiava nele por isso levantou-se. Percebi que se ficasse estaria sendo indiscreto, mas a curiosidade me fez ficar. O cobertor escorregou por seu corpo revelando-o: as vestes encharcadas moldavam-se nele exibindo suas formas e vagarosamente começou a se despir. Sei que espera uma descrição da formas femininas e de como ela se despiu lenta e vagarosamente enquanto seu rosto exibia aquela expressão envergonhada que só este tipo de menina ostenta e o leitor há de me perdoar porque fazer-lo seria anti-cavalheresco. 

     "Mas você ficou até o final e viu tudo", alguém irá protestar e para não lhes dar razão usei de toda minha força de vontade e consegui sair assim que ela revelou os seios. 
 

     ************ 

     A chuva parecia ter se intensificado e Shurato tinha se recostado na parede próxima à porta, seu semblante estava preocupado. Não é preciso esperar muito para descobrir que o motivo de sua preocupação não é a chuva incessante porque a tosse de Rakeshi o faz voltar rapidamente para o interior do aposento. 

     Entro a tempo de vê-lo recolhendo as peças de roupa dela e estendendo sobre os destroços de um armário. Ela esta sentada junto ao fogo, enrolada no cobertor e seu olhar assumem alguma vivacidade apenas quando ele senta-se próximo. 

     "Será que os outros estão bem?", ela é a primeira a quebrar o silêncio. 

     "Mas claro que sim afinal eles não são os guardiões celestiais à toa" 

     Ela se aproxima e pousa sua cabeça no ombro dele, o silêncio os envolve mais uma vez. 

     "Não tenho sido muito legal com você. Mesmo assim você tem continuado do meu lado durante este tempo todo, muito obrigado". 

     Rakeshi toca-lhe a face, carinhosamente, com a mão. 

     "É porque eu gosto muito de você" 

     "Não sei como poderei retribuir este seu sentimento..." 

     "Não se preocupe, quando chegar o momento você saberá como retribu... coff, coff". 

     O acesso de tosse deixa-o alarmado e seu semblante rapidamente volta assumir uma expressão preocupada 

     "Shurato? Eu sinto uma dor por dentro...". 

     "Não fale mais, você não esta bem e deve descansar". 

     Ele envolveu-a num abraço fazendo com ela se aconchegue em seu peito. Uma leve aura dourada emana do corpo do rapaz e os envolve. 

     "Seu Soma é tão reconfortante", ela murmura antes de aparentemente dormir. 

     "Rakeshi", sussurra ao afastar os cachos de cabelo ainda úmidos que tinham caído sobre a face dela. 

     Como poderei descrever a cena que presencio. Os dois ali sentados de frente a uma fogueira que tenta preencher o aposento com sua luz lânguida ao mesmo tempo em que tenta se mesclar com a aura dourada que os envolve. Rakeshi, com a cabeça aninhada no peito de Shurato parece dormir o sono dos justos. Ele esta apenas sorrindo. Um sorriso de ternura, de agradecimento para com aquela que esteve com ele durante todo o tempo. Um sorriso que talvez signifique algo mais. A cena é realmente mui bonita e vocês deverão perdoar minhas limitadas capacidades para descreve-la. 

      Um relâmpago corta a noite avisando-me que minha hora é chegada e que devo deixa-los a sós. À noite esta escura e a chuva continua castigando o Mundo Celestial, mas naquela noite dentro daquela casa algo especial nasceu. Todos hão de concordar. 
 


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